Amar também é deixar ir …

Começo este artigo por partilhar um pouco de mim.

Sempre me senti uma pessoa apaixonada pela vida e sempre gostei de dedicar completamente o meu coração, a minha alma, a minha mente e a minha energia ao que me interessa e que gosto realmente.

Até ser exposta a situações de colapso em que eu colapsei também.

 

Acredito que seja uma história que muitos de nós partilhamos.

 

Fadiga mental e emocional é cada vez mais evidente nos dias de hoje. Tenho acompanhado no meu dia-a-dia pacientes (ou melhor) pessoas maravilhosas com uma força, energia e paixão tremendas que passam a viver esta fase de exaustão durante meses e anos. Grande parte das vezes, devido ao apego (não saudável) da sua felicidade a relações, trabalho, sonhos, ideias, objetos.

A vida gira em torno de ciclos de agarrar e deixar ir. Mas, por vezes, ficamos tão apegados que não conseguimos pensar claramente. Grande parte da nossa vida passa por construir ligações. Seja amores, amigos, familiares, objetos, lugares, ideias. Apegamo-nos a sonhos e esperanças.

 

“Se alguém nos ama, irá lutar por nós”. Será esta a única e verdadeira forma de amar?

 

Aprender a amar significa estar preparado para deixar ir, se assim tiver que ser. O medo de perder e a necessidade de posse são o contrário do amor. A grande dificuldade do deixar ir surge porque, quando amamos (um amor, um amigo, um familiar, um animal), não estamos preparados para passar por essa experiência. É extremamente doloroso pois estamos demasiado dependentes emocionalmente.

 

Já teve medo que uma relação amorosa terminasse?

 

Provavelmente sim.

Esta ideia do deixar ir não faz sentido na nossa mente. Surgindo questões como: “Então amar não é lutar? Não é tentar mais um pouco? Não é pedir para ficar?”. Ou será apenas o medo de perder? Tudo o que começa pode acabar, mudar, transformar-se. Vivemos na ilusão de que as coisas, as pessoas, as relações, as ligações são permanentes. Agimos como se realmente fossem. Mas na realidade: “Os sentimentos serão sempre iguais?”, “As pessoas nunca mudarão?”, “Tudo permanecerá sempre como queremos?”.

As coisas mudam. As pessoas mudam. Cada um de nós muda todos os dias. O corpo muda. As atitudes mudam. Os sentimentos mudam. As experiências mudam. É uma mudança contínua.

 

O amor é uma das experiências mais maravilhosas que podemos ter.

 

Na essência do amor está a liberdade para ser e deixar ser. O amor é incompatível com a posse. Quando existe um amor que termina ou que não é correspondido, ficamos frustrados porque aprendemos a amar com expectativas de posse. Esta frustração acaba quando entendemos o que é o amor e nos libertamos (deixamos ir) do que nos aprisiona.

 

Talvez deixar ir seja a melhor prova de amor. Um ato de carinho e bondade. Mas também uma das experiências mais dolorosas.

 

Quando nos apegamos demasiado a alguém, despendemos uma grande quantidade de energia emocional. Imaginar a vida sem a pessoa pode ser algo impensável porque foram criadas rotinas, memórias, hábitos, objetivos, expectativas, muitas partilhas. E deparamo-nos com a crua realidade de ter que construir um novo caminho para nós e permitir que a outra pessoa faça o mesmo. A solidão aparece.

 

Tomar a decisão de deixar ir alguém que se ama, é uma atitude corajosa.

 

O desapego mostra que evoluímos mental e emocionalmente. É uma prova de que conseguimos criar a nossa própria felicidade. Mas, porquê viver as relações dessa forma? Não faz parte da experiência humana a ligação com aqueles que amamos?

Claro que sim. Quando conseguimos agarrar e largar estamos capazes de construir relações e conexões saudáveis em vez de apegos destrutivos. Quando deixamos ir, estamos também a deixar ir a nossa necessidade de posse e controlo.

 

Conexão e apego. Qual a diferença?

 

Quando estamos conectados e em sintonia com alguém, essa pessoa faz parte da nossa vida e nós fazemos parte da vida dessa pessoa. Isto é saudável. Quando nos tornamos apegados, a nossa energia e os nossos pensamentos passam a estar exageradamente focados na pessoa a quem nos apegámos. Esquecemo-nos de nós, da nossa individualidade e da nossa vida. Passamos a acreditar que precisamos daquela pessoa para ser feliz. Quanto mais cresce o apego, mais cresce o medo de perder.

 

A nossa mente, numa tentativa de salvação, desperta o instinto de sobrevivência.

 

Hiperfocados, obcecados e até viciados na pessoa a quem nos apegámos. Entramos em desequilíbrio emocional e, grande parte das vezes, reagimos de forma irracional. Nada disto traz felicidade.

 

No meio disto tudo, há boas notícias.

 

Toda esta dor e este sofrimento é uma escolha. Não digo que seja fácil. Mas podemos evitar viver com apegos destrutivos, aprender a deixar ir um amor, um amigo, um familiar, um sonho quando tem que ser e aprender a construir conexões positivas e saudáveis.

 

Viver sem apego não faz com que não tenha relações apaixonadas, amorosas, loucas e harmoniosas. Permite que as consiga apreciar, saborear e viver de forma positiva e saudável.

 

Todos passamos por situações de apego emocional. Faz parte do ser humano. O importante é ter consciência dos apegos que criamos e, se não forem saudáveis, é preciso aprender a desapegar. Caso não esteja a conseguir lidar sozinho com a dor emocional, pode procurar ajuda profissional. Assim, poderá aprender a conhecer os sinais de alerta. Um profissional pode trabalhar consigo no sentido da construção de conexões e relações saudáveis.